Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para
a morte. Não fales – tenho também ciúmes
da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.
Maria do Rosário Pedreira
O pensamento continuava lá e iluminava a casa, o quarto, os livros, os poemas que tinha gravado na porta, a rua, o passeio, o gosto do café, a água, os amigos, os olhos.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
a revolta das espicha-canivetes*
Tenho muitas amigas magras. Eu própria sou magra. Eu e as minhas amigas magras, que gostamos de ser magras e fazemos por isso – tipo evitando barrar o pão com banha de porco e tulicreme, emborcar refrigerantes (também conhecidos como “água com açúcar e corantes”), bujecas e uísques a cada cinco minutos, jantar bombons e encher o frigorífico daquelas coisas com cinco milhões de calorias que se vendem prontas a comer e que (confesso) nem faço ideia do que sejam ou ao que saibam e com as quais só tomo conhecimento nas filas das caixas, quando me distraio a ver o que os outros têm no carrinho, vamos formar um partido. O partido das pessoas magras que estão positivamente saturadas de ser maltratadas e vilipendiadas e de um modo geral massacradas por serem magras.
Esta forma de luta surge-nos como necessária, urgente e inadiável quando, após umas conversas ao acaso, geralmente em jantares -- nos quais, por incrível que pareça, comemos comida e até bebemos bebidas – concluímos sofrer todas da síndrome da magra farta de ser saudada dia sim dia sim com a frase “ai que horror estás escanzelada” acompanhada por uma careta desaprovadora, não raro a dar para o enojado. Cada uma de nós, magricelas, achava que só lhe acontecia a ela até este glorioso dia em que nos descobrimos classe oprimida, discriminada, e alvo constante de dichotes arremessados pela maioria badocha.
“Que é que se passa contigo, estás tão magra”; “Credo, qualquer dia desapareces”; “Estás doente?” – são algumas das frases mais comummente aturadas por quem não tem um metro de cintura, joelhos de hipopótamo e papada de tapir. Se é considerado de extremo mau gosto e péssima educação virarmo-nos para alguém e dizer “tens de parar de comer antes que rebentes”, “não olhes agora, mas acho que o botão do cós das calças vai saltar” ou “vi uma coisa que te devia ficar a matar, uma tenda de circo – como sabes, as riscas emagrecem imenso”, haverá alguém que me explique por que raio os magros – mais as magras, admito -- são soterrados com comentários do mesmo cariz amistoso mas de sinal inverso?
Tenho para mim que só se devem fazer observações sobre o físico se forem simpáticas – e, não tendo nada de agradável para dizer, calo-me. Se uma pessoa muito próxima me parecer necessitada de um reparo, talvez o faça, mas com cuidado. Há poucas coisas a que se seja tão sensível (toda a gente o é, sem excepção) como a reparos sobre o aspecto – e certamente não estou interessada em andar a magoar gente por desporto. Mas, parece, há quem esteja, desde que a vítima seja esguia. Ainda pus a hipótese de ser uma mania com particularidades – tipo, suceder só comigo. Sucede que, descobri, não há magra das minhas relações (e não só, vi esta semana a apresentadora de TV Ana Marques a relatar iguais tormentos) que se não queixe do mesmo. Morenas, loiras, ruivas, novas, menos novas, velhas, repenicadas e doces, cuidadas ou abandalhadas, todas andam com os nervos em franja graças aos mimos e sinceras preocupações da malta que quotidiana e prestimosamente lhes tira as medidas, avalia o peso e exara a sentença – condenatória, pois claro.
Chegou então a altura do contra-ataque. Espicha-canivetes de todo o mundo, uni-vos. A cada condoída observação sobre a vossa esqualidez, retorqui em género, compensando a leveza do vosso porte com a firmeza do arremesso. A próxima vez que alguém exclamar “Ai, que magra”, antes de fechar a boca já levou com um “Ainda bem que somos francas uma com a outra; como sei que não me levas a mal, vou dizer: estás uma bácora”. Ou “que engraçado, estava aqui a pensar que engordaste imenso desde que te conheci. Andas a tomar ração?”. Chato, hã? Pois é. Nós também achamos.
* sim, é certo que a generalidade dos dicionários só acolhe a versão 'espirra-canivetes', que tem aliás como primeiro significado 'pessoa zangada, que se irrita facilmente' (cito de memória). sucede que toda a vida ouvi 'espicha-canivetes' (aparentemente acolhido em dicionários brasileiros) e me faz muito mais sentido, para descrever uma pessoa magra, usar essa expressão, até porque o significado de espichar -- alongar, estender, esticar, fazer uma espetadinha -- é muito mais apropriado à ideia. e, o que para mim leva a palma sobre todos os outros argumentos, gosto mais assim.
Esta forma de luta surge-nos como necessária, urgente e inadiável quando, após umas conversas ao acaso, geralmente em jantares -- nos quais, por incrível que pareça, comemos comida e até bebemos bebidas – concluímos sofrer todas da síndrome da magra farta de ser saudada dia sim dia sim com a frase “ai que horror estás escanzelada” acompanhada por uma careta desaprovadora, não raro a dar para o enojado. Cada uma de nós, magricelas, achava que só lhe acontecia a ela até este glorioso dia em que nos descobrimos classe oprimida, discriminada, e alvo constante de dichotes arremessados pela maioria badocha.
“Que é que se passa contigo, estás tão magra”; “Credo, qualquer dia desapareces”; “Estás doente?” – são algumas das frases mais comummente aturadas por quem não tem um metro de cintura, joelhos de hipopótamo e papada de tapir. Se é considerado de extremo mau gosto e péssima educação virarmo-nos para alguém e dizer “tens de parar de comer antes que rebentes”, “não olhes agora, mas acho que o botão do cós das calças vai saltar” ou “vi uma coisa que te devia ficar a matar, uma tenda de circo – como sabes, as riscas emagrecem imenso”, haverá alguém que me explique por que raio os magros – mais as magras, admito -- são soterrados com comentários do mesmo cariz amistoso mas de sinal inverso?
Tenho para mim que só se devem fazer observações sobre o físico se forem simpáticas – e, não tendo nada de agradável para dizer, calo-me. Se uma pessoa muito próxima me parecer necessitada de um reparo, talvez o faça, mas com cuidado. Há poucas coisas a que se seja tão sensível (toda a gente o é, sem excepção) como a reparos sobre o aspecto – e certamente não estou interessada em andar a magoar gente por desporto. Mas, parece, há quem esteja, desde que a vítima seja esguia. Ainda pus a hipótese de ser uma mania com particularidades – tipo, suceder só comigo. Sucede que, descobri, não há magra das minhas relações (e não só, vi esta semana a apresentadora de TV Ana Marques a relatar iguais tormentos) que se não queixe do mesmo. Morenas, loiras, ruivas, novas, menos novas, velhas, repenicadas e doces, cuidadas ou abandalhadas, todas andam com os nervos em franja graças aos mimos e sinceras preocupações da malta que quotidiana e prestimosamente lhes tira as medidas, avalia o peso e exara a sentença – condenatória, pois claro.
Chegou então a altura do contra-ataque. Espicha-canivetes de todo o mundo, uni-vos. A cada condoída observação sobre a vossa esqualidez, retorqui em género, compensando a leveza do vosso porte com a firmeza do arremesso. A próxima vez que alguém exclamar “Ai, que magra”, antes de fechar a boca já levou com um “Ainda bem que somos francas uma com a outra; como sei que não me levas a mal, vou dizer: estás uma bácora”. Ou “que engraçado, estava aqui a pensar que engordaste imenso desde que te conheci. Andas a tomar ração?”. Chato, hã? Pois é. Nós também achamos.
* sim, é certo que a generalidade dos dicionários só acolhe a versão 'espirra-canivetes', que tem aliás como primeiro significado 'pessoa zangada, que se irrita facilmente' (cito de memória). sucede que toda a vida ouvi 'espicha-canivetes' (aparentemente acolhido em dicionários brasileiros) e me faz muito mais sentido, para descrever uma pessoa magra, usar essa expressão, até porque o significado de espichar -- alongar, estender, esticar, fazer uma espetadinha -- é muito mais apropriado à ideia. e, o que para mim leva a palma sobre todos os outros argumentos, gosto mais assim.
(publicado na coluna 'sermões impossíveis' - de Fernanda Câncio- da notícias magazine de 10 de outubro)
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Patrícia Reis, em Por Este Mundo Acima
«Devo ser estúpida. Troco o horror de uma história por uma história horrorosa. Parece-me castigo. Sim, castigo-me. É uma forma de sobrevivência. Como qualquer outra.
...
Agora só os queria de volta. Dizer-lhes as coisas que deveria ter dito.
Sofia, nunca serás feliz. Escolheste esse caminho. Vive a tristeza ao limite, como queiras, mas não culpes apenas o teu pai, nem qualquer outro homem.
Lourenço, a vida não vai chegar para o que queres fazer, e vais morrer como todos nós.
Jaime. A minha vida não valeria nada sem ti.
...
Há lutas que importa não prolongar»
terça-feira, 24 de maio de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Desporto no Feminino
Depois de tantas vitórias e derrotas ter que abandonar um clube é difícil. Até porque com o tempo deixa apenas de ser um clube e vai sendo parte de nós.
Faço desporto desde que me lembro que existo; na rua, competições, torneios e ginásios. O meu primeiro jogo em competição foi na modalidade de andebol, e no segundo jogo consegui logo marcar um golo, apesar de ter-mos perdido 40/3. Fiquei felicíssima, escusado será dizer. Apesar de a minha paixão sempre ter sido o futsal que, infelizmente, na zona pouco é dado a Raparigas. Mas é exactamente por ser Rapariga que aqui e ali nunca deixei de praticar desporto e me envolver em quase todos os desafios que propunham e podia.
Retirei-me hoje do clube que tenho jogado estes últimos anos, não sei se voltarei a jogar. Saio com a sensação de dever cumprido. Acredito no Desporto Feminino e fiz por ele. Hei-de fazer sempre, jogando ou não. Se puderem, assistem a um JOGO DE RAPARIGAS e venham-me depois dizer se vale ou não a pena.
domingo, 15 de maio de 2011
Esplanada
Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
(Manuel António Pina,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
(Manuel António Pina,
67 anos, poeta, é o novo Prémio Camões.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)

